torsdag, mai 5

velho clássico

ah, meu querido, que previsíveis são os homens. faço de conta que não vejo , tu pensas que eu sofro. quando chegas a casa, pergunto como foi o teu dia,ofereço -te o rosto ao compromisso do beijo, o lado direito , sempre o lado dierito, e apresento a tua sobremesa preferida.

gosto muito de te fazer sentir culpado.é irresistível. o teu olhar a pedir perdão em surdina,tantos anos, coitada,que seria dela se, não é assim que pensas? se soubesses que enquanto o tricot vai crescendo, eu rio e dentro de mim há continentes inteiros que tremem. tu a pensar que me enganas e eu a a fazer de conta que não sei de nada.somos tão bons nisto, não é?

já não tenho espelho.não sei se alguma vez me doeu, não me lembro da hora em que soube, sabes,amélia,o miguel.o miguel reticências.
a rosalina do emprego,o velho clássico,pois claro.tão banal.podias ter fugido,comprar outra casa com flores de plástico e aquela pintura do menino que chora na parede. naperons a mais na cozinha e uma deselegante alegria doméstica a cada domingo.

ficaste por culpa. não, por cobardia. tens medo que me mate, me atire das escadas abaixo , corte os pulsos.tens medo que eu tome 24 valium e adormeça ao teu lado até que a morte nos separe.

tu eras tão novo. eu já sabia que era infeliz, mas tu tinhas ainda esperança,eras um burguesinho que acreditava na felicidade. não te soube explicar, 14 anos e não te soube explicar.

a rosalina.moça afoita, ouvi dizer, dois filhos, 3 casamentos.outra tolinha a insistir na promessa do amor,da roupinha a secar ao sábado e o cabeleireiro da parte da tarde.

não tenho paciência. amanhã telefono-lhe, peço para vir buscar as tuas malas. sim, isso mesmo, não olhes para mim dessa maneira. vou só fazer de conta mais um bocadinho,não custa nada,sossega. hoje não tomo 24 valium, nem me atiro das escadas abaixo e nem corto os pulsos.

esta noite sou apenas a mulher honrada e traída que não sabe de nada.

No Celeiro