søndag, mai 29

explicit lyrics

a manhã veio, ele sentia-se lírico.
olhava o céu e o mar, se mar houvesse naquela cidade, ou então olhava os rostos que iam com a calma dos domingos, jornal entalado na alma e nas dúvidas, e pensava no seu poema. um poema com tráfego, com sentido proibido.

escrever é uma pornografia, pensou, e riu-se. era fácil dizer coisas assim, atirava a frase para cima da mesa e vinha-se embora. os outros que a aturassem, ou não . havia sempre a possibilidade do não. do mundo estar errado , de ele ter muitos pés a irem para sul quando o destino era norte, ou o papel não ter a mesma pele que as mãos de ontem.

a possibilidade do erro engrandece a conduta, voltou a pensar ele. estava a ficar sentencioso, acusavam-no alguns. isso é de leres esses tipos.
ele não sabia quem eram esses tipos, mas era porreiro ter embirrações. autores de quem falar mal e fazer chistes divertidos. isso aborrecia-o , mas ele sabia fazê-lo exemplarmente.
estava cada vez mais difícil acreditar em si, conseguir ficar nu dentro da sua boca.

ontem disseram-lhe alguma coisa sobre nuvens e pianos, mas que ridículo, nuvens e pianos.
estava cada vez mais enquadrado, a única forma de sobrevivência intelectual é o enquadramento, repetia.
fazem-se listas, grupos, prateleiras mentais para não cair no desespero . é absurdo pensar mais alargadamente, o espírito é megalómano e deve ser senhoreado. assim, ele achava ridículo quando, para se descartarem de alguma menção sua mais apaixonada , lhe diziam: sabes, não gosto muito de f., prefiro de longe l.
mas que merda.
por estas coisas, afastava-se dos convívios mundanos. antígona ou fausto pareciam-lhe interlocutores bem mais estimulantes do que os amigos, os parceiros e outros por classificar . tinham todos boca a mais.

era manhã, ele sentia-se lírico.
calçou-se e saiu de casa. gostava de ouvir os comboios passar, do seu comedido escândalo sonoro. aquela cidade tinha tudo: mar e comboios. parece que agora iam enterrá-los, sim, isso , enterrá-los. as pessoas não gostavam daquela cicatriz a meio da cidade. as pessoas fogem das cicatrizes e do passado.

tinha pena, o poeta. mais adiante dois cães cheiravam-se meticulosamente. devíamos aprender estas coisas, ter a frontal alegria do mijo que tem um cão e deixar de querer o mundo em moldurinhas apetecíveis. viver entre a poeira, o trânsito e o cansaço. aprender que a alma tem rugas a apodrece, que os pés nos levantam até um dia, que depois disso é o caminho que muda, que estar aqui é um menor engano, viver é saber molhar as mãos e ter os sovacos transpirados. era manhã, ele sentia-se lírico.

3 Comments:

Blogger Lídia Pereira apalavrou que ...

respondendo a pergunta "a sério?", gostei muito deste texto. fico com a sensação que fizeste este texto, como se dobra simplesmente uma folha em quatro. e, no entanto, está cheio de dobras.

søndag, mai 29, 2005 3:58:00 p.m.  
Blogger ale apalavrou que ...

fogo , lídia, a sério?obrigada, beijinhos, a sério.

søndag, mai 29, 2005 5:44:00 p.m.  
Blogger Rui Manuel Amaral apalavrou que ...

Excelente, excelente, excelente.

tirsdag, mai 31, 2005 5:09:00 p.m.  

Legg inn en kommentar

<< Home

No Celeiro